A Liturgia da Palavra de hoje, 30 de janeiro, nos convida a um momento de sincera reflexão sobre o coração humano, suas fragilidades e, ao mesmo tempo, sobre a infinita misericórdia de Deus. As leituras nos mostram que ninguém está livre de cair, mas também nos recordam que sempre é possível recomeçar.
Na primeira leitura, acompanhamos um episódio marcante e doloroso na vida do rei Davi. Aquele que tantas vezes foi elogiado por sua fé, coragem e fidelidade, agora se deixa dominar pelo desejo. Ao ver Betsabé, permite que a paixão tome conta do seu coração. Em vez de lutar contra o mau pensamento, alimenta-o. E o desejo se transforma em abuso de poder, injustiça e pecado.
Davi usa sua posição de rei para conseguir o que quer, passando por cima da dignidade daquela mulher e até mesmo da amizade e lealdade de Urias. O pecado, quando não é freado no início, vai crescendo e nos levando cada vez mais longe de Deus e dos irmãos.
Essa história nos convida a olhar para nós mesmos com sinceridade: somos equilibrados em nossos desejos ou deixamos que eles nos controlem? Sabemos dizer “não” quando algo nos afasta de Deus?
Muitas quedas começam em pequenas concessões. Quando não vigiamos o coração, perdemos a liberdade e acabamos escravos de nossas próprias vontades. Mas a Palavra de Deus não quer nos desanimar, e sim nos ensinar. Ela nos mostra que até os grandes podem cair, para que sejamos mais humildes e vigilantes.
O salmo de hoje já antecipa o que será o arrependimento de Davi. É um clamor cheio de dor e esperança: um pedido sincero de misericórdia. Reconhecendo seu pecado, Davi não se justifica, não culpa os outros, mas se coloca diante de Deus com o coração contrito. É a atitude de quem entende que só o Senhor pode restaurar, purificar e dar um novo começo. Esse salmo também pode ser a nossa oração. Quantas vezes também precisamos dizer: “Criai em mim um coração que seja puro, Senhor.”
No Evangelho, Jesus nos conduz ao centro de sua pregação: o Reino de Deus. Mais uma vez Ele ensina por meio de parábolas, usando imagens simples para revelar verdades profundas. O Reino não se impõe pela força, mas cresce no coração de quem acolhe a Palavra. É um Reino que transforma por dentro, que convida à conversão, que nos chama a uma vida nova.
Se Davi nos mostra a fragilidade do coração humano, Jesus nos mostra o caminho da renovação. O Reino é essa oportunidade constante de recomeçar, de deixar Deus agir em nós, de permitir que a graça seja maior que o pecado.
A liturgia de hoje, portanto, nos convida a três atitudes: vigilância, arrependimento e confiança.
Que o Senhor nos dê um coração humilde, capaz de reconhecer as próprias fraquezas, mas também cheio de esperança, certo de que sua graça pode transformar nossa vida. Assim, caminharemos cada dia mais perto do Reino que Jesus veio anunciar.
Pe. Thiago José Gomes