- Na primeira leitura, damos início ao Livro dos Juízes. O texto que hoje escutamos apresenta o quadro teológico em que é lida a história de Israel. O dom da terra devia avivar continuamente a consciência da aliança, da fidelidade a Javé, da pertença a Ele, como povo com uma missão. Mas a realidade foi bem diferente. À geração de Josué, sucedeu “outra geração que não conhecia o Senhor, nem a obra que o Senhor havia feito em favor de Israel.” (Jz 2, 10). E, com um sentimento de profunda dor, o autor sagrado acrescenta: “os filhos de Israel fizeram o mal perante o Senhor e prestaram culto aos ídolos de Baal. Abandonaram o Senhor, Deus de seus pais” (vv. 11ss). Ao pecado de idolatria, verdadeiro pecado original de Israel, segue-se uma lista de outros pecados como a desagregação do povo, as lutas internas, a depravação moral... E surgem consequências terríveis: sofrimento, perda da liberdade, novas escravidões. Nessas experiências, que traz castigos com função pedagógica, amadurece a exigência de conversão, de mudança de vida, e brota a prece de invocação a Deus para que salve o seu povo. Deus escuta as súplicas e intervém, enviando um "juiz" (libertador, salvador). É neste quadro que emerge novamente o amor misericordioso de Deus e a sua fidelidade, que Lhe permitem restabelecer a comunhão com o seu povo, para lhe dar vida, bênçãos e futuro. Tal realidade nos faz olhar para nós mesmos, como novo povo de Deus. Deus sempre é fiel e misericordioso, ao passo que nós, tantas vezes, Lhe somos infiéis, enveredando, tristemente, pelo caminho do pecado, da infidelidade e da idolatria. Busquemos a conversão, a mudança de vida.
- No Evangelho, temos o encontro de Jesus com o jovem rico. O ser humano anseia por vida e felicidade eterna e se interroga sobre o modo para as alcançar. No nosso texto, é um jovem que anda à procura, que quer fazer algo para alcançar a vida eterna. Jesus se agrada com a sua boa vontade e, pouco a pouco, procura orientá-lo. Indica-lhe o tradicional caminho da prática dos mandamentos. O jovem não fica satisfeito com essa resposta que lhe pareceu demasiado óbvia e até se mostra convencido de sempre ter “cumprido tudo isso” (v. 20). Procurava, pois, algo mais. Então, Jesus lhe lança uma proposta: “Se queres ser perfeito...” (v. 21). Jesus aprecia a boa vontade, o esforço de quem quer ir mais longe. Já tinha apontado uma meta sem limites, ao dizer: “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” (Mt 5, 48). O caminho para essa meta é dar tudo aos pobres e pôr-se a seguir Jesus. É o que o “Mestre” diz ao jovem, porque os bens, quando não são partilhados com os pobres, afastam o ser humano do Bem supremo, que é Deus: “onde está o teu tesouro, aí está o teu coração” (Mt 6, 21). Para seguir a Cristo, é preciso ter o coração no lugar certo. Não era o caso deste jovem, que tinha muitos bens e se foi embora triste (v. 22). O segredo para uma vida em plenitude é desfazer-se de tudo para dar lugar aos verdadeiros tesouros. É desfazer-se até de si mesmo para acolher a Cristo e a sua vida em nós: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).
- Para refletir: Procuro ser fiel em responder com a minha vida ao amor primeiro de Deus por mim? De que idolatrias e infidelidades preciso me converter? Uso dos bens materiais como um fim em si mesmo, ou como meio para chegar a Deus e aos irmãos? Cumpro ou não os mandamentos de Deus? Em que a Palavra de Deus hoje me questiona e me anima? ...
Oração
Senhor,
como o teu povo em Canaã,
também eu hoje vivo no meio de uma sociedade dominada
por culturas que Te ignoram ou se opõem a Ti,
uma cultura cheia de ídolos
que me parecem mais adequados a satisfazer os meus desejos.
Que jamais esqueça o teu amor
e tudo quanto tens feito por mim.
Que jamais me prostitua perante os ídolos dominantes.
Mas, se alguma vez cair em tentação,
lembra-Te da tua misericórdia,
e vem em meu auxílio.
Guarda-me, e guarda a tua Igreja!
Alimenta nos teus fiéis o fogo que ardia
no coração do teu Filho.
Amém.
- Para hoje: pedir a graça de sermos mais desprendidos dos bens materiais e, de outra parte, caridosos com as pessoas em necessidade. “Vai, vende o que tens... Depois, vem e segue-me” (Mt 19, 22).
Pe. Marcelo Moreira Santiago