RETIRO QUARESMAL ONLINE
DIA 8 DE MARÇO – DOMINGO
“Dá-me de beber...”
(Jo 4,7)
Leituras: Ex 17,3-7; Sl 94; Rm 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42.
PEDIR A GRAÇA DA SEMANA
Senhor, dá-me a graça de reconhecer
as minhas fragilidades, incoerências e inseguranças.
Que minhas limitações não sejam motivos
para ficar parado/a, preso ao meu eu.
Renova a minha fé e mostra a tua vontade para minha vida,
para que eu possa mais amar-te e servir-te.
INTRODUÇÃO
- Prosseguimos em nossa caminhada de oração.
- Estamos na terceira semana da Quaresma, tempo em que reconhecemos as nossas limitações, as nossas fragilidades diante de Deus.
- Ao reconhecermos que somos fracos, recorremos à graça do Pai que nos renova e transforma a nossa vida.
- Jesus confirma o seu amor por nós e nos envia em missão, para fazer o bem, acolher as pessoas que se encontram à margem e cuidar das pessoas que sofrem.
- O Evangelho de hoje nos apresenta o encontro de Jesus com a Samaritana.
- Não se trata de um encontro qualquer...
- Uma leitura apressada poderia nos levar a um encontro moralista em que Jesus reafirmaria os pecados daquela mulher samaritana.
- Esse encontro não se trata de julgamento, mas de um grande ensinamento de inclusão, de acolhimento daqueles e daquelas que se encontram à margem, vítimas de uma cultura e de uma sociedade marcada por práticas de exclusão.
EVANGELHO DE JESUS CRISTO SEGUNDO
SÃO JOÃO 4,5-42
- Meditando a Palavra de Deus
- Encontre um lugar tranquilo. Acomode-se numa posição confortável. Respire profundamente algumas vezes e procure aquietar a sua mente e o seu coração.
- No íntimo do seu coração, faça o pedido da graça dessa semana, reze à Santíssima Trindade.
- A seguir, leia com fé e pausadamente os textos bíblicos propostos hoje, especialmente o Evangelho.
- O primeiro ensinamento que Jesus nos oferece é sobre a prática do diálogo.
- Ele começa uma conversa com uma mulher e embora possa parecer uma atitude simples para nós hoje, naquela época era algo extraordinário.
- Não era comum o homem conversar com uma mulher em público. Além de ser mulher, era samaritana, povo desprezado pelos judeus.
- O encontro da samaritana com Jesus acontece à luz do dia, no trabalho cotidiano da vida daquela mulher.
- O encontro se dá junto ao Poço de Jacó, símbolo da tradição, da água que brota das profundezas da rocha.
- Por mais valioso que fosse aquele poço e a tradição do povo judaico, Jesus oferece à mulher uma nova fonte, uma água da qual quem beber nunca mais terá sede e que, ainda mais, se tornará fonte de vida.
- A mulher, diante de Jesus, toma consciência da própria vida, marcada por fragilidades e marginalizada.
- No encontro com Jesus, a mulher faz a experiência que a sua história passada não define o seu presente e nem o seu futuro.
- Ela se torna a anunciadora da Boa-nova, do Cristo Salvador.
- Hoje é o Dia Internacional da Mulher, quando lembramos a luta histórica de tantas mulheres marginalizadas e excluídas, mas que continuam reivindicando igualdade e justiça social.
- No Evangelho de hoje, Jesus nos ensina que a samaritana, assim como tantas mulheres marginalizadas em nosso tempo, é chamada a fazer parte da comunidade, não como coadjuvante, mas como pessoa ativa, missionária do Reino de Deus.
- Rezando à luz da Palavra de Deus
- No Evangelho, Jesus, em diálogo com uma mulher da Samaria, junto do poço de Jacó, propõe-se oferecer-lhe uma “água viva” que matará todas as sedes e que se tornará “uma nascente que jorra para a vida eterna”.
- A samaritana se mostra disponível para acolher e beber a água que Jesus tem para lhe oferecer.
- Estaremos, também nós, dispostos a saciar a nossa sede com a água que Jesus nos quer oferecer?
Oração
Senhor, nosso Deus e nosso Pai,
fazei-nos encontrar em Jesus Cristo
a fonte da água viva,
onde a nossa sede de justiça e de santidade
se pode saciar em plenitude.
Como a samaritana, queremos deixar
nossos antigos cântaros para beber da tua verdade.
Que o vosso amor inabalável nos converta
e nos torne verdadeiros adoradores,
que Vos adoram em espírito e em verdade.
Dai-nos, Senhor, a água viva,
para não termos sede e fazei-nos testemunhas
do vosso Filho, Salvador do mundo.
Amém.
Para refletir: Minha oração me faz abrir o coração a Deus? Procuro essa “água viva” que é Jesus? Sou testemunha da Boa-nova, levando Jesus aos corações humanos? Em que esse Evangelho alimenta a minha espiritualidade cristã? ...
- Contemplando a Palavra de Deus
- O “poço de Jacó” ocupa o centro da cena. À volta do “poço” movimentam-se as personagens principais: Jesus e uma mulher samaritana.
- A temática que vai ser abordada se relaciona, portanto, com um poço de água e com gente que procura água para matar a sede.
- Olhemos, antes de mais, para a mulher que se encontra junto do poço. Não se diz o seu nome. É apenas “uma mulher” samaritana.
- O que é que ela faz ali, junto do poço de Jacó? Vai à procura de água para matar a sua sede e da sua família.
- Aquela mulher, sem nome próprio, representa provavelmente a Samaria, aquele povo de religião heterodoxa, desprezado pelos judeus, que busca desesperadamente a água capaz de matar a sua sede de vida plena.
- Sim, também os samaritanos – esse povo herético e desprezado pelos judeus – sentem sede. A “água” que Deus quer oferecer a todos os seus filhos e filhas também é para os samaritanos.
- Aquele poço que está ali no centro da cena à disposição das gentes da Samaria é um poço histórico bem conhecido – o poço de Jacó.
- Mas, na narrativa joânica, aquele “poço” representa a Lei, o sistema religioso à volta do qual se consubstanciava a experiência religiosa dos samaritanos.
- Era nesse “poço” (a Lei) que os samaritanos procuravam a “água” de que necessitavam para saciar a sua sede de vida.
- No entanto, a água daquele “poço” já não respondia às necessidades (à sede) da gente da Samaria.
- Os samaritanos tinham há muito reconhecido a insuficiência do “poço” da Lei e até tinham arriscado procurar a vida plena noutras propostas religiosas, noutros caminhos, noutros deuses.
- Jesus vai referir, no seu diálogo com a samaritana, aos “cinco maridos” que ela já tinha tido, o que poderá ser uma alusão aos cinco deuses que os samaritanos chegaram a adorar, conforme dizia a tradição judaica (2Rs 17,29-41).
- A samaritana procurou no poço de Jacó, símbolo da Lei, mas ali encontrou uma água que não saciava: quem bebia dessa água, rapidamente voltava a sentir sede.
- Os samaritanos estarão condenados a errar eternamente à sede, à procura de uma água que sempre lhes escapa? Deus terá se afastado deles e não quererá oferecer-lhes a água de que eles necessitam para ter vida verdadeira?
- É precisamente aqui que Jesus entra na história.
- O evangelista João nos diz que Jesus, vindo da Judeia para a Galileia, “tinha de atravessar a Samaria” (Jo 4,4). Na verdade, não tinha.
- Quem, no tempo de Jesus, viajava entre a Galileia e a Judeia fazia todo o possível por não atravessar a Samaria, a fim de evitar as montanhas daquela região e, sobretudo, para não ser confrontado com a hostilidade dos samaritanos.
- Esta necessidade que Jesus tem de passar pela Samaria não é de ordem geográfica, mas sim teológica: para cumprir plenamente a missão que o Pai Lhe tinha confiado, Jesus “tinha” de passar na Samaria e oferecer aos samaritanos a água de que eles necessitavam para saciar a sua sede de vida.
- Portanto, “por volta do meio dia”, Jesus chega junto do poço de Jacó e senta-se. Ao sentar-se ali, propõe-se Ele próprio tomar o lugar daquele poço: agora é Jesus o novo poço que oferece a água aos samaritanos, sedentos de vida. Entretanto, aproximou-se do poço uma mulher samaritana. Vem buscar água.
- O poço era visto, na cultura popular palestina, como um cenário de noivado. É junto de um poço que se decide o noivado de Isaac com Rebeca (Gn 24,15-31); é junto de um poço que se decide o noivado de Jacó com Raquel (Gn 29,1-14); é junto de um poço que Moisés descobre Séfora e se apaixona por ela (Ex 2,16-22).
- É bastante provável que o evangelista João evoque aqui o velho tema profético do “noivado” de Deus com o seu povo: Jesus é o “noivo” que vem ao encontro do seu povo para o desposar e fazer com ele uma nova Aliança.
- Aqui, junto daquele poço, Jesus é o noivo que vai desposar a sua noiva, a Samaria. Doravante a Samaria já não necessitará de procurar outro “marido”, pois encontrou em Jesus aquele que é capaz de saciar a sua sede de felicidade.
- Entre Jesus e a mulher samaritana se estabelece um diálogo, um dos mais belos do Novo Testamento.
- Jesus pede à mulher: “dá-me de beber”. Jesus precisa, Ele próprio da água daquele poço? É claro que não. Então, porque se rebaixa Ele – contra todas as convenções sociais e religiosas – a dirigir-se àquela mulher pertencente a um povo impuro e desprezado?
- O pedido de Jesus é, evidentemente, para introduzir o tema da água. Jesus, desde que se apresentou aos homens no presépio de Belém, nunca teve problema de se rebaixar para descer ao nível dos seres humanos e para sentir as suas necessidades.
- A água é um bom tema de conversa: todos precisamos de água para viver.
- Na continuação da conversa, a mulher (Samaria) descobre que Jesus lhe vem propor uma água que matará definitivamente a sede que ela sente de vida eterna (Jo 4,13-14).
- Depois de descobrir isso, ela rende-se completamente a Jesus e pede: “Senhor, dá me dessa água!” (Jo 4,15).
- Que água é essa? Para o evangelista João, a “água de Jesus” – o seu grande dom – é o Espírito.
- Na conversa com Nicodemos, Jesus já havia avisado que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” – Jo 3,5;
- e quando Jesus se apresenta como a “água viva” que matará a sede do homem, João tem o cuidado de explicar que Ele se referia ao Espírito, que iam receber aqueles que acreditassem n’Ele (Jo 7,37-39). O Espírito, uma vez acolhido no coração do ser humano, transforma-o, renova-o e torna-o capaz de amar Deus e os irmãos e irmãs. Sacia a sede de vida do ser humano e dá-lhe a possibilidade de viver uma vida totalmente nova.
- Como é que aquela mulher responde à proposta de Jesus? Inicialmente, ela fica confusa. Quer, evidentemente, saciar a sua sede de vida; mas, o que deverá fazer para ter acesso à água do Espírito, à água de Jesus?
- A Samaria terá de renunciar à sua especificidade religiosa e de ceder às pretensões religiosas dos judeus, para os quais o verdadeiro encontro com Deus só pode acontecer no Templo de Jerusalém e na instituição religiosa judaica (“nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar” – Jo 4,20)?
- Jesus lhe responde, no entanto, que não se trata de escolher entre o caminho dos judeus e o caminho dos samaritanos. Não é no Templo de pedra de Jerusalém ou no Templo de pedra do monte Garizim que Deus está… Quem quiser encontrar Deus e acolher o Espírito que sacia a sede de vida, deve aderir a Jesus, escutar as suas indicações, seguir os seus passos, ir atrás d’Ele no caminho do amor e da entrega.
- Da adesão a Jesus nascerá um povo novo, a comunidade que vive do Espírito (Jo 4,21-24).
- Então desaparecerão as barreiras de inimizade que separavam aqueles dois povos: os judeus e os samaritanos.
- A única coisa que passa a contar é a vida do Espírito que renovará e transformará o coração de todos, que a todos ensinará o amor a Deus e que fará de todos – sem distinção de raças ou de perspectivas religiosas – uma família de irmãos e irmãs.
- A mulher responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro (agora inútil), e correndo a anunciar aos habitantes da cidade aquela fantástica proposta que Jesus, em nome de Deus, oferece à Samaria.
- A narrativa joânica refere, ainda, a adesão entusiástica de todos os samaritanos à proposta de Jesus e a “confissão da fé” proclamada por toda a comunidade.
- Jesus é reconhecido como “o salvador do mundo” – isto é, como Aquele que dá ao ser humano a vida plena e definitiva (Jo 4,28-41).
- Os samaritanos descobriram um novo poço onde poderão saciar a sua sede de felicidade e de vida eterna: Jesus.
Importante:
- Finalize sua oração agradecendo e confiando a Deus os frutos que espera colher neste tempo quaresmal em preparação para celebrar a Páscoa do Senhor...
- Entre em diálogo com aquele que nos ama e nos anima na missão ...
- Renove os seus propósitos de acolher o dom de Deus, a “Água viva” ...
- Converse com Jesus, agradecendo, pedindo, manifestando a Ele o que está em seu interior.
- Reze um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e dê glorias a Deus...
- Faça, a seguir, as anotações espirituais...
“Senhor, dai-me água viva a fim de eu não ter sede”
(Jo 4,15)
Pe. Marcelo Moreira Santiago