A Liturgia da Palavra de hoje nos convida a mergulhar nas verdades essenciais do Evangelho, revisitando a Primeira Carta de São João e um episódio marcante da vida de Jesus.
Retomando a inspiradora Primeira Carta de São João, somos confrontados com uma verdade fundamental e muitas vezes desafiadora: o amor não é meramente um sentimento passageiro ou uma emoção que nos arrebata. Ele é, antes de tudo, uma decisão, um compromisso e uma ação concreta. São João nos interpela com clareza: como podemos afirmar que amamos a Deus, a quem não vemos, se não amamos o nosso irmão, a quem vemos e com quem convivemos diariamente?
Esta passagem nos desafia a olhar para dentro de nós mesmos e para as nossas relações. Não podemos ser incoerentes em nossa fé. O amor a Deus e o amor ao próximo não são dois mandamentos distintos, mas as duas faces de uma mesma moeda divina. É nesta coerência de vida que reside o verdadeiro critério para o seguimento de Jesus. Nosso amor fraterno, nossas ações de justiça, de acolhimento e de perdão são a prova visível e palpável de que somos verdadeiramente filhos e filhas de Deus, manifestando a sua presença transformadora no mundo. Sem o amor que se traduz em atos, nossa fé corre o risco de se tornar vazia e sem frutos.
Em seguida, o Evangelho que hoje meditamos nos transporta para um momento crucial na vida pública de Jesus, que nos permite compreender o esquema de Sua missão redentora. Nele, somos testemunhas de um Jesus que se revela profundamente assíduo na oração, encontrando na comunhão com o Pai a força e a direção para cada passo de sua jornada. Mais do que isso, Ele se mostra familiarizado com as Escrituras, que não são para Ele meras palavras antigas, mas a voz viva de Deus, a revelação de Seu propósito salvífico.
Já em Sua plena maturidade, Jesus fala com autoridade e clareza sobre Sua própria identidade. Ele não é apenas um profeta, um mestre ou um homem sábio; Ele é o Messias prometido, aquele que veio para cumprir as antigas profecias. O trecho que Ele mesmo leu, e que hoje ressoa em nossos corações, anuncia a figura do Messias como o Libertador. Não se trata de uma libertação política ou social no sentido estrito, mas de uma libertação que alcança a raiz de toda escravidão humana: o pecado, a ignorância e a opressão que nos afasta de Deus e uns dos outros. Ele veio para anunciar a Boa Nova aos pobres, para proclamar a libertação aos cativos, para restituir a vista aos cegos e para pôr em liberdade os oprimidos.
Que vivamos uma fé integral, onde o amor não é apenas um ideal, mas uma prática constante. E que possamos, inspirados por São João, fazer do amor ao próximo o selo autêntico de nossa pertença a Deus. E que, a exemplo de Jesus, nos tornemos instrumentos de libertação em nosso tempo, levando a Boa Nova aos que mais precisam, erguendo os caídos, consolando os aflitos e construindo um mundo mais justo, fraterno e reconciliado.
Pe. Thiago José Gomes