Neste tempo quaresmal, a liturgia nos coloca diante de uma escolha decisiva, que atravessa toda a existência humana. Não se trata de algo abstrato ou distante, mas de uma decisão cotidiana: vida ou morte, bênção ou maldição. A Quaresma é justamente esse espaço pedagógico em que Deus nos educa para escolher bem, para discernir o que conduz à vida plena e o que, aos poucos, nos esvazia por dentro.
Na primeira leitura, Moisés fala com uma clareza desconcertante: “hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça”. Não há neutralidade diante de Deus. Escolher a vida significa amar o Senhor, escutar a sua voz e permanecer ligados a Ele. O desvio do coração começa quando a escuta se enfraquece e outros “deuses” (projetos, desejos desordenados, falsas seguranças ocupam o centro). A Quaresma nos convida a revisar para onde está inclinado o nosso coração e a reconhecer que a verdadeira vida não nasce da autonomia absoluta, mas da relação fiel com Deus.
O Salmo aprofunda essa imagem ao comparar o justo a uma árvore plantada à beira da torrente. Quem confia no Senhor cria raízes profundas e encontra estabilidade, mesmo quando o clima é adverso. Já o caminho dos perversos é frágil como palha ao vento. Em linguagem quaresmal, trata-se de perguntar: onde estão fincadas as raízes da minha vida? Em que fonte tenho bebido? O tempo da conversão é também tempo de replantar-se junto da água viva da Palavra.
No Evangelho, Jesus leva essa escolha ao extremo do seguimento. Ele não esconde o caminho: cruz, renúncia, entrega. Segui-lo implica perder a própria vida: não no sentido de aniquilamento, mas de descentramento. Quem tenta salvar-se a si mesmo, fechando-se no próprio interesse, acaba se perdendo; quem se entrega por amor, encontra a vida verdadeira. A Quaresma revela que a cruz não é um acidente no caminho cristão, mas um critério de autenticidade do amor.
À luz dessa Palavra, jejum, esmola e caridade não são práticas isoladas, mas expressões concretas da escolha pela vida. O jejum educa o coração, libertando-o de dependências e recordando que nem só de pão vive o homem; a esmola rompe o fechamento egoísta e transforma o que tenho em dom para o outro; a caridade dá sentido a tudo, pois é nela que a renúncia se converte em amor concreto. Viver bem a Quaresma é permitir que essas práticas nos desloquem de nós mesmos e nos conduzam, passo a passo, à vida que nasce da entrega, da partilha e da confiança em Deus.
Deus nos abençoe e nos guarde!
Seminarista Mirosmar Gonçalves