“Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!”. O refrão do salmo de hoje expressa uma prece sincera, elevada por aqueles que depositam plenamente sua confiança no Senhor e não nas realidades passageiras deste mundo. É confiando em Deus que nos tornamos capazes de acolher a sua graça em nossa vida e testemunhá-la na vida dos irmãos e irmãs com quem convivemos. Foi essa confiança que permitiu a tantos homens e mulheres levarem até o fim a missão assumida, chegando, muitas vezes, ao extremo do martírio.
No discipulado cristão, a beleza da graça divina manifesta-se à medida que nos abrimos à ação de Deus em nossa vida. Grande exemplo disso é São Paulo. Nestes últimos dias do tempo pascal, temos acompanhado, nos Atos dos Apóstolos, os seus passos no caminho evangelizador para o qual foi chamado. Mesmo enfrentando inúmeras dificuldades em seu apostolado, Paulo nos oferece o testemunho de alguém que não teme abandonar-se à ação do Senhor.
Isso se torna evidente em sua atitude de anunciar a fé na ressurreição diante de grupos que não acreditavam nessa verdade e ao mesmo tempo eram hostis a ela. Poderia ele ter silenciado para preservar a própria integridade física; contudo, Paulo compreende que não se pode calar a voz do Espírito Santo em favor da própria comodidade. Essa santa ousadia do Apóstolo não fica sem resposta, pois o próprio Cristo lhe manifesta sua presença e lhe confia a missão de testemunhar a verdade em Roma.
Assim é a vida daquele que permanece fiel e confia em Jesus: sua entrega jamais fica sem resposta, porque Aquele que chama é fiel e sustenta os seus diante das dificuldades que surgem ao longo da caminhada. Quem confia no Senhor não se perde, porque Deus jamais abandona aqueles que verdadeiramente se dispõem a amá-lo e servi-lo.
Muitas vezes nos falta essa capacidade de acreditar que Jesus permanece ao nosso lado em meio às tribulações. Corremos o risco de imaginar que a atitude do Mestre seja semelhante à nossa, marcada por relações frágeis e superficiais, que se desfazem diante da menor dificuldade. Cristo, porém, é fiel às suas promessas. A maior delas é o amor que nos comunica e por meio do qual deseja fortalecer nossa caminhada de discípulos.
Vemos isso concretamente quando, em sua oração sacerdotal, Jesus manifesta o desejo de fazer-nos participantes do amor que o une ao Pai, o qual não é egoísta, mas se manifesta na entrega que se torna para nós garantia de vida. O maior ícone dessa realidade é a cruz. Por isso, quando surgirem dúvidas sobre a presença de Cristo junto de nós, voltemos o olhar para o madeiro sagrado. Ali está a prova de que nossa confiança não foi depositada em alguém que abandona por qualquer motivo, mas em um Deus poderoso, cujo poder se manifesta no amor e na misericórdia.
Mas e nós? Tendo consciência de tão grande amor, estamos dispostos a tornar essa verdade conhecida por todos? Esse amor foi capaz de nos transformar a ponto de nos levar a anunciar tão grande riqueza aos irmãos que ainda não a conhecem? Precisamos refletir sobre isso, pois Cristo tem sede da humanidade e não deseja perder nenhum daqueles que o Pai lhe confiou. Para essa missão, Ele quis contar conosco. Não sejamos indiferentes a esse chamado; deixemo-nos enamorar pela graça de sermos testemunhas do Senhor no mundo.
Por isso rezemos: Amparai-nos Senhor com a vossa graça, para que não nos deixemos levar pelo medo e pela comodidade, silenciando a voz do vosso Espírito Santo que age em nós. Tornai-nos arautos do vosso amor, dando-nos a capacidade de curar diversos corações feridos com os quais convivemos. Amém.
Seminarista Rômulo