Neste mês de fevereiro, inicia-se, para toda a Igreja, o tempo litúrgico da Quaresma, tempo propício de conversão e renovação, à luz da fé. Somos chamados a dar passos firmes na acolhida e vivência da Palavra de Deus e do seu Projeto de Vida e Salvação, a nós oferecido em seu Filho e nosso Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo.
A partir dos exercícios quaresmais do Jejum, da Esmola e da Penitência, devemos nos empenhar na renovação das nossas relações com Deus, com as pessoas e com toda a obra da criação.
De muitas formas somos inseridos neste tempo litúrgico, como através das celebrações de Missa e dos sacramentos, mormente, para este tempo, o da confissão; também através do exercício da caridade cristã, atentos às necessidades de nossos irmãos e irmãs.
A fé que nos pede colocar Deus acima de todas as coisas, também nos direciona a testemunhar esse amor a Deus vivendo o amor em gestos concretos em favor de todos os irmãos e irmãs, a começar dos mais empobrecidos e necessitados.
A cada ano a Igreja no Brasil nos propõe, através da Campanha da Fraternidade (CF), uma realidade que provoca a conversão de nosso coração e o compromisso com os mais vulneráveis. A CF é um convite à escuta da Palavra de Deus que ilumina a realidade e convoca à ação transformadora.
Para este ano, a Igreja propõe o tema “Fraternidade e Moradia”, com o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Assim recordamos que Deus, o Pai, nos enviou o seu Filho para estar entre nós. Ele adentrou este mundo, fez aqui também sua morada e se entregou pela nossa salvação.
À luz da sua encarnação, voltamos nosso olhar para a realidade desafiadora da moradia no Brasil. A falta de um teto digno não é apenas uma carência material, mas expressão concreta da exclusão social que nega a dignidade de filhos e filhas de Deus.
Convivemos com um déficit alarmante, em todo o Brasil, de moradia para o povo e moradia digna. Cresce, sempre mais, a especulação imobiliária; aluguéis muito caros; as políticas habitacionais, apesar de todo esforço governamental, ainda se mostram insuficientes; muitas pessoas e suas famílias, premidos pela situação econômica, passam a viver em áreas de risco, enfrentando perigos, sobretudo como agora em tempos de mudanças climáticas; a reforma habitacional não decola...
Precisamos avançar, à luz da fé e do exercício pleno da cidadania, no compromisso com a dignidade humana e a promoção do bem comum. Empenhados assim em construir uma sociedade mais justa na qual todos tenham onde morar.
Com criatividade e fidelidade ao Evangelho, nossas comunidades são chamadas a “arregaçar as mangas” e a trabalhar, com iniciativas próprias e cobrar das autoridades públicas atenção ao direito à moradia em vista da promoção da justiça habitacional e do direito à moradia digna para todos; também a nos tornar próximos daqueles que vivem à margem, sem casa, sem terra e sem cidade. Se a gente não pisa no chão e não sente na carne, não acontecem a conversão e o apelo à transformação das realidades injustas e violentas que se contrapõem à novidade do Reino de Deus.
A conversão quaresmal não é apenas pessoal e interior, mas também comunitária e social. Pense nisso, descruze os seus braços e viva a alegria em servir. Ninguém sem teto!
Pe. Marcelo Moreira Santiago